Upskilling em IA: Yuliya Kazakevich sobre como ativar as três camadas centrais da IA nas decisões de KYB
Ponto de vista, Onboarding11 de fev. de 2026
Yuliya Kazakevich é uma referência comprovada em risco e compliance, de liderar equipes na Apple a ocupar cargos de liderança em instituições financeiras como Adyen e Cash App. Agora, Yuliya leva mais de 15 anos de experiência em estratégia de risco, relacionamento com reguladores e modernização de controles para a Lithic, como Head of Risk and Compliance.
Em conversa com Maximilian Eber, cofundador e CPTO da Taktile, Yuliya revela por que o upskilling em IA nos serviços financeiros é fundamental para o crescimento do negócio e o sucesso do cliente. Ela conta como o setor está deixando de ver a IA como uma ferramenta única, por que a automação com IA é só o começo e como o papel dos profissionais de risco está mudando de forma fundamental, em tempo real.
Em detalhes: as três camadas da IA e onde elas geram impacto
“A maioria das pessoas pensa na IA como uma ferramenta só”, diz Yuliya. Ela explica que, na verdade, a IA tem três camadas distintas, cada uma com uma função própria nos fluxos de gestão de risco.
A primeira camada é o machine learning, o motor preditivo. Ele analisa o comportamento do cliente, sinaliza anomalias e pontua o risco por meio de um reconhecimento de padrões muito preciso, aprendendo constantemente com os dados para distinguir o que é normal do que não é.
Depois vêm os large language models, ou os “intérpretes”. Yuliya descreve o papel deles com clareza: “Se você precisa entender algo, como o que um merchant está vendendo, qual é a política de entrega dele ou analisar os documentos dele, eu uso um modelo de linguagem. Ele pega muita complexidade e cria estrutura e contexto muito bem.”
A terceira camada, a mais recente, é a IA agêntica, ou o “executor”. Nas palavras de Yuliya, os agentes de IA podem nos ajudar a agir, por exemplo escrevendo resumos para que as equipes manuais não precisem gastar tempo com trabalho repetitivo.
Para ilustrar melhor, Yuliya conta: “Talvez eu queira pausar um merchant porque encontrei algo muito estranho, ou preciso verificar o registro da empresa consultando listas de sanções e coisas do tipo. Nesse caso, eu uso IA agêntica.”
Entender essas diferentes camadas e saber orquestrá-las bem é o primeiro passo para transformar a forma como sua equipe toma decisões com IA.
Velocidade com IA: como a equipe de Yuliya reduziu em 70% o tempo de KYB e de casos
Quando Yuliya coloca essas três camadas para trabalhar, os resultados são inegáveis.
Em um cenário na Cash App, Yuliya fala sobre merchants que operavam um enorme marketplace online, vendendo de suplementos vitamínicos e eletrônicos a acessórios de celular e cigarros eletrônicos.
Alguns produtos exigem licenças especiais em determinados estados, enquanto outros caem em zonas cinzentas da regulação. Yuliya observa que um analista humano poderia passar horas vasculhando o site, cruzando regulamentações e tentando categorizar cada item com precisão.
A IA foi feita exatamente para esse tipo de complexidade.
Yuliya explica a abordagem da equipe: “Os LLMs fazem um trabalho incrível ao sinalizar o que pode exigir verificações adicionais de licença [...] e ao criar um resumo de risco que dá sinais muito claros sobre o que precisa de uma due diligence extra.”
“Além disso”, continua Yuliya, “você pode ter um agente que assume, executa as verificações da entidade empresarial, busca os dados de licenciamento do produto que de fato exige licença em certos estados e gera uma narrativa pré-preenchida para a equipe de operações.”
Ao combinar LLMs e IA agêntica nessa estratégia de intérprete e executor, a equipe de Yuliya na Cash App reduziu em cerca de 70% o tempo dos casos de KYB. Esses ganhos de eficiência provam o que é possível quando as equipes de risco incorporam a IA às suas estratégias de decisão.
Upskilling em IA como vantagem competitiva nos serviços financeiros
Usar IA para automatizar o trabalho manual permite que as equipes dediquem mais recursos aos casos mais críticos.
Para Yuliya, isso representa uma oportunidade única: o papel dos líderes de risco está evoluindo rapidamente além das expectativas tradicionais e exige um conjunto de habilidades totalmente novo.
“O letramento em IA é fundamental.”
Ela afirma: “[Os líderes de risco] precisam ser em parte construtores, em parte operadores e em parte tradutores. Já não basta entender as regulamentações. É preciso entender muito bem os fluxos de produto. É preciso entender a experiência do cliente e como seus sistemas se comportam em escala. É preciso ser capaz de depurar um fluxo, questionar as saídas dos modelos e projetar salvaguardas que evoluam com o negócio.”
Para mostrar por que as equipes deveriam considerar elevar suas habilidades, Yuliya cita um cenário real: as mudanças tarifárias dos EUA introduzidas em 2025.
Antes, na gestão de risco, essa mudança no ambiente macroeconômico poderia ter desencadeado uma cascata de investigações manuais só para definir um plano de ação.
Na Cash App, porém, a equipe de Yuliya conseguiu usar IA para trazer informações cruciais na hora, como quais segmentos de negócio foram afetados pelas tarifas ou quais prestadores de serviço ficaram no fogo cruzado. Mais impressionante ainda, a equipe pôde treinar agentes de IA para recalcular os scores de exposição a risco de crédito de merchants que, de repente, precisaram atrasar o envio e o atendimento de pedidos.
Yuliya resume tudo em uma verdade simples: “O letramento em IA é fundamental.”
Mais do que nunca, as equipes precisam entender como as ferramentas de IA funcionam, onde elas se destacam e onde o julgamento humano continua sendo decisivo. Isso é fundamental para construir estratégias de decisão flexíveis e confiáveis em condições reais.
Como Yuliya entrega melhores experiências ao cliente com colaboração entre áreas
É claro que nem a equipe com mais letramento em IA tem sucesso isolada. Yuliya aprendeu que a estrutura organizacional é tão importante quanto a capacidade técnica.
“Os profissionais de risco não são apenas um obstáculo. Eles podem trazer muitos insights úteis.”
Ao longo da carreira, Yuliya viu risco e compliance incorporados aos produtos desde o primeiro dia, com as equipes de risco compartilhando a responsabilidade com stakeholders de várias áreas. Ela leva essa filosofia para todas as equipes que lidera.
“Existe a compreensão de que risco e produto não podem operar em silos”, destaca Yuliya. “Tenho trabalhado recentemente em [um projeto] em que estamos fazendo parceria com produto para adiar certas verificações para uma etapa mais baixa do funil. Por exemplo, adiar as verificações de documento de identidade ou de conta bancária para merchants de menor risco até que o merchant faça de fato a primeira transação.”
Ela continua: “Digamos que você consiga deixar até 70% dos seus merchants passarem automaticamente e serem aprovados, mas, por outro lado, ainda pode pensar em adicionar fricção para os perfis de alto risco.”
Criar uma experiência excepcional para o cliente passa a ser o norte compartilhado entre as equipes de risco e de produto. Com essa abordagem, a equipe de Yuliya conseguiu um aumento de 1% na conversão, sem nenhum aumento nas perdas por fraude.
“Espero que as empresas do mundo todo comecem a perceber que os profissionais de risco não são apenas um obstáculo. Eles podem trazer muitos insights úteis.”
Os três principais aprendizados de Yuliya para quem adota IA em serviços financeiros
Para encerrar a conversa, Yuliya resume seu pensamento em três princípios práticos.
Primeiro, repensar como o risco se encaixa no desenvolvimento de produto. “Incorpore o risco ao seu processo de desenvolvimento de produto desde o primeiro dia. As equipes precisam ter um dashboard compartilhado, resultados compartilhados e responsabilidade compartilhada, especialmente em conversão, fraude e experiência do usuário.”
Segundo, ser estratégico na adoção de IA. Para equipes que estão começando a jornada com IA, Yuliya dá um conselho prático: “Acho que você não precisa automatizar tudo. Comece onde você sente mais dor, onde isso está afetando a experiência do seu cliente.”
Terceiro, investir na sua equipe. “Hoje os analistas de risco precisam fazer muito mais do que escrever regras. [...] Quanto mais técnica e mais atenta ao produto for sua equipe, mais rápido vocês vão avançar.”
Quando implementadas com critério, essas estratégias podem transformar as equipes de risco em verdadeiros motores de crescimento, forças que impulsionam o sucesso do negócio e protegem os clientes.
Líderes como Yuliya estão reescrevendo o que significa gerenciar risco em serviços financeiros. Estamos ansiosos para ver como ela e outros continuarão ampliando os limites com estratégias orientadas por IA.
